Acabei de tropeçar num conjunto de 24 slides reunidos num pdf, apresentados num simposium realizado pela IHF na Tunísia em 2009.
O link é o seguinte:
http://www.ihf.info/files/Uploads/Docum ... 2010_E.pdf
Ao ler este documento, e partindo do pressuposto que, de cá para lá, não houve alterações, não posso deixar de comentar:
1º) Grande ênfase colocada na análise dos bloqueios atacantes. 12 dos 24 slides são para ilustrar maus exemplos de bloqueios, num estilo que mais me parece que serve para chamar a atenção aos senhores árbitros. Não posso deixar de referir que, ou muito me engano, ou já eram falta, pois são coisas tão evidentes ...
2º) No slide 19, aparece uma série de faltas que passam a ter o castigo dos 2 minutos:
a) "Fouls from behind (from the side)" - Pelo que percebo, quem fizer falta aproximando-se numa trajectória diagonal pelas costas do oponente, leva 2 minutos. Se é isso, não estou a ver como é que se vai aplicar esta nova alteração. É que muitas das trajectórias de quem tem bola não são rectilíneas. Um exemplo, a tradicional saída dos pontas para contra-ataque directo ...
b) "Holding on (long time) or pulling an opponent down" - Nada a dizer
c) "Hard foul against head/neck" - Salvo erro, este tipo de faltas, durante 1 campeonato do mundo (salvo erro, França 2001), dava desqualificação se fosse na cara, e 2 minutos se fosse no pescoço. Admirei-me como, mais tarde, voltaram atrás. Parece que querem voltar a por as coisas nesses termos.
No entanto, esta regra apela ao subjectivo, o que é mau. O que é que o legislador quis dizer com "Hard foul"? Era mais simples de entender, e fácil de implementar, se se escrevesse que todo o e qualquer contacto com a cabeça e o pescoço eram puníveis com 2 minutos!
d) "Hard hitting against the torso or the throwing arm pushing with high intensity (while jumping / running fast)" - Penso que, nos casos dos puxões no braço rematador, de haver lesão impeditiva de regresso do lesionado ao jogo, o jogador que fez a falta devia ver o cartão vermelho.
No entanto, o legislador volta a abusar da subjectividade. O que é "Hard hitting"? Para mim, era mais fácil de implementar uma regra do tipo "contacto com uma só mão / braço, falta! Contacto com as 2 mãos / braços, 2 minutos! Toda a gente sabia, toda a gente entendia!
e) "Attempting to make the opponent lose body control" - Mais digo, se daqui resultasse lesão impeditiva do lesionado voltar ao jogo, era de aplicar cartão vermelho ao faltoso!
f) "running / jumping with high speed into an opponent" - Nada a dizer.
3) Nos slides nº 20 e 21, define-se o critério de "dangerous to opponent's health" (perigoso para a saúde do oponente), que passa a ser a base para os julgamentos dos senhores árbitros (em vez da intensidade do contacto).
Mais uma vez, apela-se a um uso de subjectividades. "Strong force on the foul"? Qual é o nível que define a fronteira entre "Stong" e "Weak"?
No entanto, para mim, o mais importante deste slide é a foto usada. Um claríssimo aviso aos defensores de ponta, que são "useiros e vezeiros" neste tipo de acções ...
4º) O slide nº 22 aborda a questão da saída do GR da sua área para interceptar passes de contra-ataque.
Lá diz-se que:
a) "O GR, geralmente, está em posição de ter uma boa visão sobre a acção" - "Geralmente", ou seja, nem sempre ... E nos casos em que não tem boa visão sobre a acção? Quando o GR sai numa situação dessas, "geralmente", não está a ver se vem alguém, quer é apanhar a bola! Se a bola vem alta, está a olhar para cima, e não para a altura dos seus olhos.
E se o contacto se dá depois do GR apanhar a bola? A culpa do contacto continua a ser do GR? O que estou a ver que vai resultar daqui é a impossibilidade, na prática, do GR sair para tentar cortar passes para contra-ataque directo. Se sair, arrisca-se a ver o cartão vermelho! Talvez seja esse o efeito que a IHF queira, pois podem estar a pensar que mais contra-ataques directos dão mais golos. Mas não deixa de ser uma redução do papel do GR.
b) "O actor principal da acção é o GR" - Não me parece. É tão importante o GR como o jogador que tenta o contra-ataque. Se este não estivesse lá, não haveria acção.
c) "Tem a responsabilidade de evitar qualquer perigo para o oponente" - Não deixa de ser uma falácia! O legislador quer que o GR se preocupe com a saúde do oponente? Por este andar, proíbe as defesas dos GR a remates dos 6 metros, onde as técnicas usadas normalmente usam de rápida aproximação ao rematador, e, não raro, dum certo "atirar-se para cima" do rematador.
5º) No slide nº 23, deixa de haver a pena de "exclusão", passando as situações que estavam aí previstas a serem alvo de desqualificação com menção no relatório final do árbitro.
6º) No slide nº 24, todo o rematador aos 7 metros que atire a bola contra a cabeça (head) do GR (sem que este tenha usado a cabeça - fisicamente falando - para defender a bola), sofrerá a sanção de desqualificação.
Aqui, não parece haver subjectividades. É certo que pode acontecer um acidente, em que a bola escape da mão do rematador e bata na cabeça do GR. Aí, não haverá grande perigo para a integridade física do oponente (neste caso, o GR). Outra situação que pode ocorrer é no remate de ponta (especialmente nos remates em basculação - dextros na ponta direita), onde, devido ao tipo de remate, pode-se atingir o GR sem querer. No entanto, da maneira que este texto está escrito, não me parece haver margem de manobra para os árbitros aplicarem outra sanção que não a desqualificação.
ESTE TEXTO É UM COMENTÁRIO AO DOCUMENTO LIBERTADO PELA IHF, E CITADO ACIMA.
